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Os Heróis Fordianos

Bebete Viégas

Aprecie!

Em 59 anos John Ford fez 141 filmes, em sua maioria westerns, indo de mudos à coloridos. Para analisar sua obra escolhi três destes filmes que, apesar do cenário bastante diferenciado, não escapam à marca característica de Ford.

As Vinhas da Ira (The Grapes of Wrath - 1940), Mister Roberts (Mr. Roberts - 1955) e Rastros de Ódio (The Searchers - 1956) são obras que, aparentemente bastante distintas, possuem a mesma essência, que aliás é a mesma para todos os filmes de Ford, fato que ao invés de se apresentar como ponto empobrecedor, consegue ser tratado de forma sempre envolvente e particular de acordo com cada filme.

Não há um único filme do diretor em que o ponto central da narrativa não é a justiça e caminhando com esta o sacrifício do herói.

O herói é sempre alguém que possui um vida marcada por perdas e sofrimento. Um solitário em busca de seus princípios, com grande senso de dever, beirando o fanatismo, onde a morte não é algo a se temer. Heróis que acreditam poder modificar o mundo e, por isso mesmo, o herói fordiano chega a ser considerado como messiânico.

Apesar dos heróis serem pessoas muito sós e soltas no mundo, têm uma forte ligação com a família, com a terra, são muito enraizados na sua comunidade, à procura de um lar, da paz.

Ford a partir desse princípio comum a todos seus filmes tinha uma outra preocupação, a platéia. Tudo era pensado de forma a envolver esse público, sendo assim um adepto da "montagem invisível" ( termo usado por André Bazin) evitando, então, mexer demais a câmera, close-ups, tudo que fizesse com que se percebesse que aquilo era um filme, aproximando o espectador daqueles personagens para que este compartilhasse seus conflitos.

A emoção é que move seu cinema, ficando tudo o mais em segundo plano. Assim, são poucos os seus filmes que tem relação com o presente, com algum teor histórico, pouco importando o que ocorre ao redor do personagem, para nós seu conflito "pessoal" é que conduzirá a narrativa.

Nas palavras do próprio diretor: "O melhor cinema é aquele em que a ação é longa e os diálogos breves.".

Acompanhando o desenrolar da história dos filmes escolhidos, percebemos que todos tratam da saga de um herói, que lutará não por um bem pessoal mas por uma causa maior, fazendo o que for preciso para alcançar seu objetivo, mesmo encontrando muitos obstáculos no caminho.

São filmes repletos de ação, tanto que podemos contá-los só através das próprias ações, sem ser necessário usar palavras para explicar a história.

O cenário e o contexto em que as histórias se passam são apenas a justificativa para que a ação ocorra e, principalmente, servem para criar o conflito para o personagem. Dessa forma, apesar de Mister Roberts e As Vinhas da Ira terem como pano de fundo momentos históricos, eles não servem e nem pretendem ser considerados como material para estudo daquele determinado momento.

Em Mister Roberts fica muito clara essa idéia pois sabemos que o filme se passa no contexto da guerra, mas desta não temos uma notícia, porque realmente não importa para o andamento do filme. Ela só serve para criar o objetivo de Doug. Nesse filme o nosso protagonista quer se tornar herói, quer fazer algo pelo seu país, quer lutar, morrer se for preciso, mas morre realizado, com a missão cumprida.

O filme inteiro é sobre o combate do personagem em conseguir lutar na guerra, e quando chegam as notícias de que esta está acabando, sua angústia vai crescendo e com ela o filme, o envolvimento da platéia que torce até o fim para que ele consiga realizar esse desejo que persegue incessantemente.

Mister Roberts não foge ao padrão dos heróis fordianos, e assim sacrifica tudo (inclusive sua vida pessoal em função de um bem maior), mesmo a morte aparecendo como algo não preservado: se tiver de ocorrer assim será.

A luta e os obstáculos para se alcançar o objetivo nunca é algo que provém do personagem, o conflito nos filmes de Ford não estão nos personagens, estão fora deste e é algo que não o afeta pessoalmente, mas sim toda uma comunidade de pessoas.

Doug é, mais uma vez, alguém que sofre injustiças, no seu caso da parte do Capitão, que fará de tudo para atrapalhá-lo.

A analise feita para Mister Roberts, e Doug servem perfeitamente para As Vinhas da Ira e Tommy, assim como para Rastros de Ódio e Ethan.

Em Rastros de Ódio a condição do herói como alguém desprovido de uma vida social fica ainda mais clara que nos demais filmes. O personagem é absolutamente só, apesar de ter muito amado uma mulher e seu sentimento ser por esta correspondido, o seu fanático senso de dever o impediu de se entregar a esse relacionamento, caminho por pouco não seguido por Martin.

O fato de o personagem não ter uma vida pessoal nada tem a ver com uma falta de ligação de sua parte às pessoas, muito pelo contrário, Ethan preserva muito sua família, tanto que o filme trata de sua longa busca à sobrinha. Em todos os filmes de Ford a família assume um papel bastante importante onde, mesmo que a distância, esta significa muito para o herói e, geralmente, será o motivo pelo qual ele lutará, pelo bem estar e pela honra desta.

Em As Vinhas da Ira a família representa tanto para Tommy, que a impressão que temos é que todas as suas atitudes são regidas em função desta. Aí, como também em Rastros de Ódio, a questão da terra, do lar, é fundamental, a luta por preservar este local que é colocado quase que como sagrado.

Os heróis fordianos, em sua grande maioria, apesar de valorizarem a família nunca dão sequência a esta, quase nunca se envolvem com alguém, quase nunca tem filhos, pois tudo isso iria contra o perfil desses heróis de serem pessoas sem amarras que podem sacrificar suas vidas pelo seu objetivo maior, que por este farão tudo, irão onde quer que seja necessário.

No conjunto da obra do diretor podemos destacar como aspecto bastante interessante a abordagem que ele dá a muitos assuntos polêmicos e, que talvez por isso mesmo, a maioria de seus filmes possam ser de certa forma considerados atuais, podem ser transportados para os dias de hoje.

Mesmo que em As Vinhas da Ira o assunto principal seja datado, ele contem uma discussão absolutamente atual, se mudarmos a história de cenário perceberemos que a situação pela qual os personagens passam continua acontecendo com milhares de pessoas até hoje. A injustiça, o poder dos que possuem dinheiro e se vêm no direito de passar por cima de tudo e de todos. Onde ninguém sabe ao certo quem comanda, um inimigo invisível e inatingível.

O preconceito em No Tempo das Diligências pode perfeitamente ser encontrado hoje em dia, neste aspecto, aliás, pouco mudou. O pré - julgamento das pessoas pela sua condição social, sem o mínimo conhecimento dessas e de seu caráter.

Para abordar esses assuntos em seus filmes (a grande maioria, quase a totalidade) John Ford escolheu os EUA como cenário e, principalmente, o Monument Valley, em se tratando de westerns. A América de Ford pode ser considerada como que idealizada. Sua América é utópica, traduzida então através de seus heróis, das sagas desses homens que as vezes nos parecem até sobre-humanos.

E devido à criação desses heróis messiânicos e suas sagas que caracterizam todo o conjunto da obra do diretor é que John Ford foi apelidado de "O Homero do Cinema". É exatamente essa conclusão que chegamos ao analisar seus filmes, mesmo que cada um se apresente sobre nova roupagem, o princípio é o mesmo. John Ford foi grande criador de Ulisses.

O Diretor

John Ford nasceu em 1o de fevereiro de 1895 e morreu em 1973.

Descendente de irlandeses foi batizado com o nome de John Martin e nasceu em Cape Elizabeth ( Maine, leste dos EUA).

Iniciou no cinema como trabalhador no set, depois como dublê , ator, assistente de direção para, só então, se tornar diretor.

Sua estréia como diretor se deu em 1917, assinava como Jack Ford e, assim, assinou 48 filmes.

John Ford tem como diretor algumas características bastante marcantes e pessoais.

Além de todos os seus filmes terem a mesma estrutura, independendo do tema, e de seus heróis terem sempre as mesmas características, Ford também inovou ao adotar o método de filmar muito em céu aberto, não em cenários, como era o mais comum na época.

Transportava toda a sua equipe para as locações e por lá permaneciam o tempo que fosse necessário para se completar as filmagens. Via nesse sistema duas grandes vantagens, em primeiro lugar aproveitar os maravilhosos cenários que a natureza lhe oferecia e, em segundo lugar, achava que afastando a equipe de seu mundo cotidiano a teria por completo, com total dedicação e sem interferência alheia.

Outro ponto marcante na carreira do diretor é a presença de praticamente a mesma equipe em todos os seus filmes, tanto na frente das telas, os atores, como por trás destas, os técnicos, diretor de fotografia, produtor, roteirista entre outros. Ford, segundo os que trabalharam com ele, também gostava muito de improvisar.

Seus maiores sucessos de bilheteria foram, em ordem crescente, O Homem que Matou o Facínora (1962), Como Era Verde o Meu Vale (1941), Fomos os Sacrificados (1945), A Paixão de uma Vida (1955), Rastro de Ódio (1956), Mogambo (1953), Depois do Vendaval (1952).

Os Oscars do diretor: O Delator (1935) - melhor direção, roteiro (Dudley Nichols), ator (Victor McLaglen) e música (Max Steiner); Furacão (Hurricane, 1937) - melhor som; No Tempo das Diligências (1939) - melhor ator coadjuvante (Thomas Mitchell) e música (Richard Hageman); As Vinhas da Ira (1940) - melhor direção e atriz coadjuvante (Jane Darwell); Como Era Verde o Meu Vale (1941) - melhor filme, direção, ator coadjuvante (Donald Crisp), fotografia (Arthur Miller) e direção de arte (Richard Day e Nathan Juran); The Battle of Midway (1943) - melhor documentário; December 7th (1943) - melhor documentário; Legião Invencível (1949) - melhor fotografia (Winton C. Hoch); Depois do Vendaval (1952) - melhor direção e fotografia (Winton C. Hoch).

Bibliografia

KELL, Pauline e AUGUSTO, Sérgio (sel.). 1OO1 noites no cinema. São Paulo: Companhia das Letras,1994.
BAZIN, André. O que é o cinema? São Paulo: Horizonte de Cinama, 1992.
_. Especial sobre John Ford - Homenagem aos seus 100 anos. Folha de São Paulo. São Paulo, _ jan. 1995. Caderno Mais!, p. 1-8

Filmografia

Direção nos seguintes filmes:

NO TEMPO DAS DILIGÊNCIAS. EUA, 1939, John Ford
AS VINHAS DA IRA. EUA, 1940, John Ford
A LONGA VIAGEM DE VOLTA. EUA, 1940, John Ford
SANGUE DE HERÓI. EUA, 1948, John Ford
MISTER ROBERTS. EUA, 1955, John Ford
RASTROS DE ÓDIO. EUA, 1956, John Ford

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