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Sexo Frágil e o Cinema - 1896 à 1954

Helena Maura

Aprecie!

Este ensaio começou a tomar forma quando, à procura de um tema, constatou-se que a maioria dos livros sobre llistória do Cinema sequer mencionava a presença de mulheres amantes nos primórdios da indústria de filmes.

A partir daí, perguntas apareceram: onde estão essas mulheres? Elas existiram e trabalhavam? Tiveram um papel importante ou se limitavam apenas ao Star System?

Algumas condições também foram impostas para um melhor rendimento da pesquisa:

  • período pesquisado vai desde o nascimento do Cinema, em 1895, passando pelo Cinema Mudo (1900-10-20), transição para Cinema Sonoro (fina da década de 20 e início de 30) até a metade da década de 50;
  • se limitou a cobrir apenas os filmes realizados nos Estados Unidos e, alguns, na França;
  • prevaleceu a curiosidade sobre diretoras e produtoras, já que escritoras-roteiristas são mais reconhecidas;
  • não possui pretensões ou tendências feministas.

Com surpresa foi constatado que até 1920, na era do Cinema Mudo, existiram mais diretoras, produtoras e proprietárias de estúdio que em qualquer outra época na história do cinema, inclusive nos dias de hoje. A maioria dos atores eram mulheres, algumas delas com as suas próprias produtoras de filmes. E com mais da metade de escritores-roteiristas sendo mulheres, pode-se dizer que elas controlovam uma fatia considerável da crescente indústria de filmes. É quase inexistente material bibliográfico sobre este assunto. Diretoras e produtoras menos conhecidas nessa época, quando muito, são apenas citadas. Podemos listar alguns desses nomes: Nell Shipman, Elizabeth Pickett, Marguerite Bertsch, Lule Warrenton, Ruth Stonehouse, Margery Wilson, Ida May Park. Outras, consideradas mais importantes, são citadas em material considerável. São elas: Alice Guy-Blaché, Lois Weber, Dorothy Arzner, Ida Lupino e a roteirista Francis Marion.

Alice Guy-Blaché

Uma das principais representantes desse período foi a francesa Alice Guy-Blaché (1875-1968), a primeira diretora de filmes da história, que chegou a dirigir, produzir e/ou supervisionar cerca de 300 filmes em sua vida. Ela aparece também, causando controvérsias, como a verdadeira criadora da narrativa para o cinema. Teríamos então não um "pai" da narrativa no cinema, Georges Méliès, e sim uma "mãe", Alice Guy, já que seu primeiro filme La Fee aux Choux (algo como A Fada nas Couves), de 1896, foi realizado alguns meses antes do filme de Méliès.

Alice Guy começou sua carreira no cinema quase que ao acaso. No final do século XIX, trabalhava como secretária de Leon Gaumont que, ao produzir projetores de película em massa, designou-a a tomar conta da produção de filmes para suprir suas máquinas. Desse momento em diante passou a produzir pequenos filmes, sempre para a projeção em máquinas Gaumont. Em 1907 assume a direção artística da Gaumont e parte com seu marido Hebert Blaché para os Estados Unidos. Ao perceber que o mercado americano precisava de filmes especialmente designados para ele, organiza, em 1910, a Solax Company, com a própria Alice Guy assumindo uma das direções. A Solax Company tinha como principal objetivo atender filmes específicos do gosto americano, sempre interpretados por artistas americanos. Entretanto, perto de 1919, era quase impossível para qualquer "independente" competir com o crescente monopólio das "Majors", em Hollywood, e Alice Guy-Blaché não consegue mais trabalho na indústria que ajudara a criar.

Lois Weber

Outra figura representativa feminina no cinema foi Lois Weber (1882-1939), uma das muitas diretoras empregadas pela Universal nos clássicos anos de Hollywood de 1910 e 1920. Lois Weber foi a primeira mulher a produzir, dirigir, estrelar e co-escrever um filme de um grande estúdio. Chegou, em alguns anos, a ser "o diretor" mais bem pago por uma major no cinema mudo.

Weber estava totalmente convencida que o cinema era um instrumento para o aprimoramento da moral e cidadania, gastando toda sua energia até o final de sua vida, uma das poucas verdadeiramente idealistas no cinema. Seus filmes eram focados nos problemas sociais que a mulher e a sociedade enfrentavam na época. Aborto, controle de natalidade, racismo, pena de morte, prostituição e prosmicuidade eram tratados por ela com firmeza em face das inevitáveis controvérsias inflamadas por seus filmes. Assim, Weber prosseguia com seus ''filmes missionários", como ela própria os chamava, e conseguia sucesso, sem exploração. Frequentemente seus filmes provocavam audiências da censura e eram apreendidos pela polícia. A atenção gerada pela mídia apenas alimentava o sucesso comercial de sua carreira.

Mas no começo dos anos 20, os filmes de Weber começaram a fracassar nas bilheterias. O público, buscando apenas o entretenimento, não estava mais interessado em sermões sobre a moral ou temas complexos e sensíveis demais para suas vidas. Terminou sua carreira trabalhando como consultora de roteiros para a Universal na década de 30, falecendo em seguida.

Francis Marion

Uma das maiores escritoras-roteiristas de Hollywood foi, sem sombra de dúvidas, Francis Marion (1887-1973) que, num período compreendido dentre as décadas de 10 a 50, escreveu pelo menos 136 roteiros que chegaram a ser efetivamente produzidos, passando sem esforço pela transição do cinema mudo para o falado. Esses números se comparados com os atuais, mostram que hoje em dia é uma raridade encontrar roteiristas com pelo menos dez roteiros de filmes produzidos e finalizados.

Marion iniciou sua carreira de roteirista em 1916 em uma produção com Mary Pickford, The Foundling. Torna-se sua companheira de filmes, já que escreveu os principais filmes dessa atriz, ajudando a consolidar a imagem de "America's Sweetheart". Marion trabalhou com quase todos os principais diretores do Cinema Mudo, de Maurice Toumeur a John Ford, além de escrever filmes para as principais estrelas da época como Marie Dressler, Douglas Fairbanks, Rodolfo Valentino, Lilian Gish e Greta Garbo, entre outras. Muito dos filmes de Marion eram dramas, filmes de ação ou ainda de gangsters e tiroteios, a antítese dos ''filmes de mulheres". Talvez essa fosse a receita de seu sucesso nos grandes estúdios onde conseguiu se manter durante um bom tempo.

Marion tinha uma visão realista e dura de Hollywood, como demonstra nesta frase de sua autobiografia: ''Depois que você trabalha há anos em um estúdio, você se sente como uma das pernas de uma centopéia, útil como uma espécie insignificante em um módulo operacional ...".

Dorothy Arzner

A única mulher a trabalhar como diretora nos tempos áureos dos grandes estúdios, Dorothy Arzner (1900-1979) começou sua carreira em 1922, inicialmente como montadora, passando logo a roteirista e, enfim, diretora. Dirigiu aproximadamente 18 filmes, entre 1927 e 1943, mas nenhum deles chegando a ser um grande sucesso. Mulher de garra, conseguiu com muita dificuldade se manter na indústria, numa época onde só homens trabalhavam como diretores.

Ida Lupino

Uma das mais produtivas diretoras de todos os tempos. Entre 1949 e 1954, Ida Lupino (1917-1995) escreveu e dirigiu seis filmes em sua própria companhia, ''The Filmmakers", enquanto atuava em outros sete filmes dirigidos por outros.

Como a pioneira Lois Weber, Lupino usava assuntos polêmicos, de consciência social que resultavam em temas para seus filmes como: estupros, biganúa, paralisia infantil, mães solteiras. E como Weber, ela transferia esses tópicos para seu tempo onde eles trariam, no mínimo, controvérsia. Mas, diferentemente de Weber, Lupino era antes de tudo uma "entertainer" e não uma pregadora. E por trabalhar também como atriz, Lupino sabia atuar, literalmente, do outro lado.

"Você não diz à um homem...", uma das muitas frases de Lupino, "... você sugere para ele", ilustra sua forma tão 'diversa' de trabalhar. Depois de 1954, Ida Lupino trabalhou somente em seriados de televisão, seja como diretora, produtora ou atriz (convidada especial ou não). Seriados como O Fugitivo, Perdidos no Espaço, Os Intocáveis, entre muitos outros passaram por suas mãos e, não leve um susto, se ao rever alguns clássicos da TV, como Batman ou As Panteras, a convidada especial for Ida Lupino.

Sexo Frágil ?

Em uma pesquisa para saber a situação de mulheres atuantes atualmente na indústria de filmes americanos segue abaixo uma tradução do relatório anual do Directors Guild of America (DGA):

"Segundo o relatório anual do DGA a porcentagem do total de dias de trabalho pelos membros mulheres e de minoria (?) declinou, com relação aos anos anteriores.

Esse relatório indica a porcentagem total de dias de trabalho pelos membros mulheres e minoria do DGA versus o número total de dias de trabalho de todos os membros do DGA em 1997. Esse relatório é dividido em duas categorias: filmes ( incluindo tanto os cinematográficos quanto os de televisão) e tape.

Os números desse relatório mostram que os dias de trabalho das mulheres diretoras de filmes caíram de 8,8% do total de dias de trabalho de todos os diretores de filmes de 1996, para 7,0% em 1997. O atual número de dias de trabalho de diretoras declinou, de 4.233 para 3.411.

Esse declínio é particularmente alarmante pois o total de número de dias de trabalho de todos os membros do DGA diretores de filmes aumentou, de 45.955 em 1996 para 48.659 em 1997.

A Primeira Vice-Presidente do DGA, Martha Coolidge completa: ' É escandaloso que num ano em que todos os membros diretores do DGA trabalharam quase 3.000 dias a mais que no ano anterior, as mulheres e a minoria, atualmente, perderam cerca de 900 dias de trabalho...', '... É claramente um problema que precisa ser imediatamente resolvido.' " http://www.dga.org

Como solucionar esse "problema" ninguém sabe... Ou pelo menos, aparentemente, ninguém está muito interressado...

Bibliografia
ACKER, Ally. Reel Women: Pionners ofthe Cinema, 1896 to the Present. Continuum Publishers, EUA, 1991.
ANGER'S, Kenneth. Hollywood Babylon. Bell Publishing, EUA, s/d.
FLOREY, Robert. Hollywood Années Zéro. Ed. Seghers, França, 1972.
GRIFFITH, Richard e MAYER, Arthur. The Movies. Spring Books, Inglaterra, 1963.
GUBERN, Román. História dela Cine I. Ed. Baber, Espanha, 1989.
KOSZARSKI, Richard. Hollywood Directors - 1914-1940. Ed. Oxford University Press, EUA, 1976. MANVELL, Roger, trad. Manuel Elidio. O filme e o público.Ed. Aster, Portugal, 1959.
SADOUL, Georges. Dictionnaire des Cinéastes. Microcosme, França, 1975.
SADOUL, Georges. Dictionnaire des Films. Microcosme, França, 1975.
WALKER, Alexander. EI Estrelato - EI Fenomeno de Hollywood. Ed. Anagrama, Espanha, 1970.
XAVIER, Ismail, org. O Cinema no Século. Imago Editora, Rio de Janeiro, 1996.

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