Filmagem Profissional é Interrogação Filmes :: Lápis na mão e um grilo na cabeça<BR>Entrevista com Walbercy Ribas
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Lápis na mão e um grilo na cabeça
Entrevista com Walbercy Ribas

Lúcio Mazzaro

Aprecie!

Nota: Esta entrevista foi concedida por Walbercy Ribas no primeiro semestre de 1997, mas suas idéias prevaleceram e no ano de 2001 o longa metragem em animação "A História do Grilo Feliz e sua Turma" finalmente saiu para o circuito de exibição, após anos de persistência, trabalho e esperança. Parabéns Walbercy!


Walbercy Ribas, da Start Desenhos Animados, fala sobre sua carreira na publicidade, e da produção de seu longa-metragem com o personagem Grilo Feliz e sua turma.

A entrada do estúdio de Walbercy Ribas, a Start Desenhos Animados, já nos imprime um ar de mistério. Na porta de metal vemos o número da residência pintado com pincel largo, o que lhe confere um traço um tanto rústico. O "miolo" dos números 9 e 6 são preenchidos por diferentes cores. A campainha é um sino, que deve ser tocado puxando-se uma corda que sai por um orifício ao lado da porta. Já imagino sermos atendidos por um personagem de desenho animado, como no filme "Roger Rabbit"; mas quem vem à porta é a secretária de Walbercy. Logo depois ele mesmo nos pede que aguardemos mais um pouco, pois ainda tinha que resolver um problema.

Somos finalmente conduzidos ao seu escritório. e durante o percurso, podem ser vistos por todas as paredes, emoldurados, os diversos acetatos utilizados em filmes por ele produzidos. Entramos numa sala estilizada nos moldes orientais: paredes e portas de correr de madeira recobertas com vidro opaco que imita o original, de "papel" , japonês; máscaras de "demônios" na parede; e um dragão em miniatura sobre a mesa, que observa tudo atentamente. Enquanto preparamos o equipamento (a entrevista será gravada em vídeo), o nosso entrevistado coloca uma música new age, transformando em uma paisagem onírica o enorme jardim que se observa pela janela. "Eu mesmo plantei tudo... e também cuido pessoalmente! É como uma terapia.", diz este homem que ostenta orgulhosamente sua origem interiorana. Começamos a entrevista, ensaiando uma espécie de introdução:

INTERROGAÇÃO - Estamos falando com Walbercy Ribas, da Start Desenhos Animados...

WALBERCY RIBAS - Há 32 anos que tenho este estúdio, sem nunca ter fechado... e isso é uma grande vantagem. (Risos)

INTERROGAÇÃO - Gostaríamos que você falasse a respeito de sua formação, sobretudo com relação à sua atividade profissional.

WALBERCY - Eu fui mais autodidata do que tenha tido propriamente uma formação cinematográfica ou de desenho animado. Comecei fazer o curso de arquitetura que larguei logo depois. Por ter vindo de família humilde, tive que, desde cedo, dedicar-me muito ao trabalho, sobretudo com relação à animação, pois na época não havia o curso de comunicação, e a animação era uma profissão nova e desconhecida no país. Apesar de não ser um pioneiro na área, considero-me um dos precursores da nova era do desenho animado no Brasil. Os antepassados do desenho animado estavam restritos àquela coisa acadêmica, americanizada, de cartoon; mas eu sempre gostei mais do desenho voltado para a arte, verdadeiras "pinturas animadas", influência que fui encontrar nos desenhos tchecos poloneses, e também canadenses, com aquele conteúdo sobretudo humano. Isto fez com que me engajasse muito mais pelo processo filosófico e cultural dos meus trabalhos do que pelo lado de entretenimento. Acho que isso contribuiu para minha projeção internacional. Para se passar uma mensagem é preciso uma grande bagagem cultural, e apesar de, por várias razões, não ter me formado numa universidade, através de meu trabalho faço muitos contatos, inclusive internacionais, viajo muito, leio bastante. Ou seja, nem sempre a universidade é tão importante assim. O ex-primeiro-ministro da Inglaterra John Major,Willy Brandt, ex-presidente socialista da Alemanha e outros não frequentaram a universidade. Mas isso não que dizer que estou tentando livrar a minha cara (Risos).

INTERROGAÇÃO - Essa sua preferência pelo desenho europeu deu uma certa liberdade de criação, de concepção estética?

WALBERCY - Bom, eu acho que o ser humano deve desenvolver a mente, o lado cultural, e não apenas o divertimento, senão você faz um trabalho apenas objetivando um mercado. É claro que ganhar dinheiro com desenho animado...bom, é claro que eu ganhei dinheiro, mas com animação para propaganda. Se você faz um filme ou animação de arte, no Brasil, você morre de fome; fica restrito à alguma mostra específica ou atrelado à exibição de algum outro filme... e como isso dificilmente você consegue recursos para realizar uma obra seguinte. A publicidade é uma atividade muito rentável, e no meu caso, eu fiz vários filmes publicitários- Barata Rodox, Sharp etc- mas em cada um deles pude realizar diversas experimentações, em termos de grafismo, comunicação etc. Não deixou de ser uma sorte eu poder trabalhar assim, mas também acho que a sorte vem quando você a busca. Se você quer um objetivo deve perseguí-lo. Especialmente no plano artístico, é uma questão de necessidade de se autoafirmar.

INTERROGAÇÃO - E sobre a frase "erra quem acredita que a massa não pensa"?

WALBERCY - Aconteceu um grande fenômeno quando eu fiz esse filme da Sharp. Já estava um pouco consagrado com o filme da Barata Rodox, e quando fiz o filme da Sharp foi um sucesso espetacular. Aquela coisa do tipo o general mandar o soldado assistir a televisão para avisar quando começasse a passar o comercial. Tinha gente que me via como uma espécie de bruxo com túnica...(risos). E quando me conheciam viam que eram uma pessoa normal. Eu sou apenas um artista... ganhei um dom de Deus e que desenvolvi esse dom. Recebi muitos telefonemas, houve pedidos para que realizasse continuações. Desde a garotinha que vai a escola até a sogra e até mesmos os concorrentes se surpreenderam e sentiam, mesmo inconscientemente, que havia naquele filme, além da beleza das imagens, também, uma mensagem.

INTERROGAÇÃO - E o sucesso deste primeiro filme da Sharp veio afetar sua liberdade de criação que, até certo grau, você então possuía?

WALBERCY - A propaganda nunca deu liberdade total para ninguém, mas no caso da Sharp foi um amigo meu, ele queria fazer uma coisa nova. Nesse primeiro filme, eu pensei em fazer uma coisa da televisão sendo como uma caixinha de surpresas, mágica. O pessoal da Sharp não sabia o que iria receber. Às vezes, a primeira cena feita poderia, na edição final, ser a última. E isso se repetiu nos filmes seguintes, nos quais eu sempre procurava me superar. É uma tarefa difícil, pois além de artista, tenho que ser também um empresário, pagar salários, impostos, contas etc. O artista, quanto mais se supera, evolui, mais ele tende a se afastar da comunicação, torna-se elitista, pois quase ninguém o compreende. A recepção e premiação dos filmes (inclusive o Clio Awards para o terceiro filme da Sharp de temática ecológica) sempre foi um estímulo para que continuasse a buscar aquela superação, uma necessidade de evoluir. Então vieram outros trabalhos... como contra a destruição dos jardins da cidade (de São Paulo), seu excesso de edifícios etc, e contra a violência, da série "Tempo de Renovar, Tempo de Escolher". Pediram que a gente fizesse um filme relativamente violento, idéia que não foi do meu agrado. Como procurávamos cada vez mais fazer filmes com um certo engajamento, aquela coisa planfetária, os lojistas ficaram meio contra. Estávamos nos afastando daquela nossa proposta. Então demos uma parada, e só retomamos mais à frente com os filmes, para a Sharp, do Grilo Feliz e sua Turma.

INTERROGAÇÃO - Esses personagens já existiam antes de estrelarem nos comerciais, já eram idealizados para um longa metragem?

WALBERCY - Já. Na verdade eu não me conformo em ficar a vida inteira só fazendo filmes de trinta segundos, um minuto... É uma revolta pessoal. Isso é uma opinião pessoal minha, Eu faço propaganda a trinta anos, e embora seja uma escola maravilhosa, dando a possibilidade de variar muito nos tipos de trabalho, formas de comunicação diferente, um aprendizado e formação cultural , a nível plástico e gráfico, é preciso sair um pouco disto. Já fiz projetos de curtas para os EUA, mas eu tenho que fazer o meu longa-metragem made-in-Brazil. Já recebi muitos convites para trabalhar no exterior. Embora muitos tenham ido neste caminho por uma questão de sobrevivência, eu preferi ficar por aqui com meu estúdio. Eu acho que se você tem talento, uma facilidade para criar, e sai para trabalhar em outro país, você acaba enriquecendo a cultura daquele país e empobrecendo mais a do seu. Eu consegui sobreviver por aqui... e do meu estúdio saíram muitas pessoas de talento que estão se dando bem no exterior. No meu caso, já era um sonho fazer um longa metragem para crianças, eu tenho uma sensibilidade com elas e gostaria de lhes transmitir algo. Então criei esses personagens do Grilo Feliz. O caso é que a Sharp queria que eu realizasse um novo comercial com algum personagem, então acabei cedendo o Grilo Feliz para aquela publicidade. Fez um sucesso muito grande. No entanto, isso me prejudicou enormemente, pois eles criaram uma ligação muito forte com a marca. Para solucionar o problema, cedi algumas vezes os personagens para outras empresas. Mas fazer um longa no Brasil é muito difícil. Em geral, exige-se um pragmatismo do artista, que na verdade quer apenas fazer arte. Arte para ele é como bebida e comida, e às vezes tão importante quanto. Tire a arte do mundo... e o que é que sobra? Em tudo está o desenho, a forma. A própria história da humanidade é contada pelo desenho, pela pintura.

INTERROGAÇÃO - Mas, e aquele pessoal que vai trabalhar lá fora, tem essa mesma visão e vão trabalhar temporariamente apenas para obter recursos para seus projetos, ou ficam lá permanentemente?

WALBERCY - Não, não.. quando eles vão para lá, não querem mais voltar. Sabe, quando você parte de um país pobre e vai para um país rico... Todos que saíram daqui estão vencendo lá fora. Eles só voltam para rever os familiares ou amigos, sentir o "calorzinho" do país.

INTERROGAÇÃO - À parte o problema financeiro, tecnicamente há diferença qualitativa entre o que se faz aqui e no exterior?

WALBERCY - Na verdade, o primeiro grande problema neste nível é a falta de dinheiro aqui. Imagine só - sem querer desmerecer o talento que eles, realmente, possuem- se Spielberg e George Lucas seriam o que são se tivessem que batalhar para conseguir verba de três milhões de dólares para um longa, coisa que lá eles gastam às vezes com uma cena, ou até uma tomada. Ou seja, eles têm talento e nós também temos, mas nós não temos o dinheiro. O cinema é, talvez só depois do armamento, a maior indústria dos EUA. Aqui não existe indústria. Eu estou há quinze anos fazendo meu longa... se eu tivesse dinheiro, nesse tempo poderia ter feito até cinco!.. Não se consegue desenvolver talentos aqui. Lá nos EUA, existe ensino especializado até para se fazer música para filmes, a música do filme. Outro fator é mão de obra. O brasileiro, com essa mescla de raças, tem um jogo de cintura muito grande, o que nos coloca bem a frente de outros países em termos de habilidades. Nós, por exemplo, estamos fazendo trabalhos para a Kellogs que antes eram feitos no Canadá. Ou seja, temos a capacidade para realizar trabalhos que seriam feito em qualquer lugar com qualidade de primeiro mundo. Basta ter recursos.

INTERROGAÇÃO - Há alguém que você veja atualmente como um novo destaque na área da animação?

WALBERCY - Não, não vejo ninguém. Talvez por uma certa falta de contato, inclusive devido a uma restrição na área de animação causada pela computação gráfica. Hoje eu faço animação mais para o exterior, por que aqui muitos acham que a computação gráfica, o computador é a solução de tudo. É uma idéia errada sobre o computador. Ele é bom para composição de objetos inanimados, mas se você quer animar um boneco, dar-lhe um balanço, tem que fazer isso na mão. Depois no computador é que você modela, aplica cor, sombra etc, e lhe dá movimento. A animação tem que ser feita pelo homem. Não o homem-técnico, mas o homem-artista.

INTERROGAÇÃO - É assim que você procede em relação aos comerciais e ao longa metragem?

WALBERCY - Bem, com o longa eu cheguei a desenvolver quarenta minutos. O problema aqui do Brasil é que a economia muda muito,. Os economistas aqui são verdadeiros alquimistas. E isso afetou a produção, provocou uma demora, e o tempo desatualiza o filme. Tem essa nova geração, a geração do videogame, e o videogame é algo que muda a percepção das crianças. Acabei tendo que mudar o ritmo do filme, dar mais agilidade etc. Pegar os cenários, aplicar novas texturas de cor, sombra ... Tem que se aproveitar tudo que se fez... Jogar fora seria suicídio. Vou ter que escanear a animação, alterar traço, verificar pintura... Mudou muito o relacionamento de acabamento de filme em relação ao cinema. O computador veio abreviar os problemas que até então haviam - a manipulação de películas, problemas com a fotografia do filme etc. A tecnologia digital nos trouxe essa segurança que antigamente não tínhamos. O computador também veio a eliminar mão de obra. Antigamente haviam até dezesseis pessoas trabalhando comigo - xerox, pintura de acetato, fotografia etc. O computador trouxe um certo desemprego. É preciso ver que esta é até uma questão social, que tenderá a se agravar no final de século... essa substituição do indivíduo pela máquina. Por outro lado, ficou uma outra geração, a do videogame, que mexe com computador e que trabalham fazendo os efeitos destes grandes filmes produzidos hoje, como Maskara, Jurassic Park etc

INTERROGAÇÃO - E no meio desta onda digital, o que você acha, por exemplo, do fato de nos últimos Oscars haver a predominância de curtas de animação feitos em Stop-Motion?

WALBERCY - Sim, aquela animação feita com massinhas... eu gosto muito. É isso que me fascina no ser humano, essa vantagem que ele tem de ser resistente. Existem artistas que são resistentes à tecnologia, à ferocidade com que ela impõe o conceito de que é a solução de tudo. Essa massificação da tecnologia desvaloriza o trabalho do animador... e no entanto não é capaz de produzir nada expressivo. Por isso me encanta estes filmes com massinhas, feitos quadro a quadro. É difícil, precisa-se isolar do mundo, para manter a sequência... Eu mesmo pretendia fazer um filme nesta linha.. Mas é um problema de muitas intenções e pouco tempo e mão de obra. Gostaria de montar aqui um núcleo cultural, realizando vários projetos, desenvolvendo novos talentos. Mas para isso precisa-se de subsídios. Quando você faz trabalho para publicidade é complicado. Você ganha dinheiro, um dinheiro que facilita sua vida, e então fica difícil você dedicar ao seu trabalho de arte.

INTERROGAÇÃO- A atual estabilização da economia e o aparente ressurgimento de uma produção cinematográfica no país não alterariam este quadro?

WALBERCY - Eu te falei que este país é de economistas que são verdadeiros alquimistas. Eles mudam toda hora a regra do jogo. No meio do jogo. Por exemplo, a lei do audiovisual, é muito louvável, pois aquilo que você, de certo modo, pagaria ao governo como imposto pode ser dado ao sujeito para ele realizar seu filme. Mas você não sabe até quando isto irá durar. Além disso, dentre os muitos projetos aprovados, boa parte daqueles que são efetivamente realizados não passam de verdadeiras bombas que somos obrigados a engolir porque se utilizaram da lei para obter os recursos. E ainda há o medo de que, de repente, quando você esteja engatando o projeto, alguém chegue e diga: "isso não pode mas ser feito assim!". Aqui no Brasil parece que se faz leis tomando chopps, e quando alguém se dá conta da besteira que fez aí é tarde, o acordo já foi assinado. Aconteceu isso comigo com plano Collor, num projeto com o Canadá. Lá fora existe um respeito profissional pelo artista Aqui no Brasil, ao contrário, não há interesse por cultura, apenas por dinheiro. Não se prioriza a cultura, a educação... esse é o grande mal do país.

INTERROGAÇÃO - O artista brasileiro teria alguma influência na arte no exterior?

WALBERCY - Não, porque basicamente existe uma espécie de circuito fechado de arte entre EUA, Europa e, mais pelo seu potencial econômico, o Japão. Além do que já tem muita gente boa lá fora. Nos destacamos mais pelas nos coisas exóticas, um pouco mais pela música. Mas em termos de traço, desenho, não. Não temos um canal de comunicação. Só temos a propaganda. E nesse meio é que começamos a sentir o gostinho da grana... e por isso acabamos guardando o nosso sonho por um tempo. O meu é concluir o longa, nunca foi trabalhar com propaganda. Sabe, no cinema você põe sua alma... você se relaciona mundialmente, há uma sintonia. Já em propaganda, o cara só está preocupado em ganhar o prêmio para pegar a conta do cliente do concorrente. Há uma fúria leonina por dinheiro... No cinema o relacionamento é mais humano. Só que fazer cinema no Brasil... ou ele tem subvenção, ou então ele é um gênio que estoura na bilheteria. Que nem o El Mariachi, que custou US$7000 e rendeu sete milhões. Mas isso só acontece lá fora, nos EUA. Também, lá há excelentes escolas de cinema, que dão recursos e condições para que o indivíduo desenvolva suas capacidades. O filme de pós-graduação do cara lá fora já é um puta filme.

INTERROGAÇÃO - Você acha que aqui no Brasil existe uma certa falta de senso de realidade neste sentido?

WALBERCY - Aqui até que se exigem coisas interessantes para serem realizadas. Mas, às vezes, acabam ficando um pouco fora do alcance. É preciso ter dinheiro para serem feitas. Eu acho que a escola deveria dar condições para o cara, por exemplo, não precisasse pedir o estúdio do amigo para trabalhar, nem para o pai dar uma grana para financiar o trabalho. Infelizmente, na nossa realidade uma faculdade não tem condições de dar recursos onde haja por exemplo, trinta câmeras disponíveis. O jeito é fazer que nem o Glauber, que meteu as caras, fez filme com restos de película. Tem que se ter uma bagagem, assistir muitos filmes, assistí-los que nem comida, absorver técnicas de roteiro, luz etc. Assim você começa a construir o seu próprio filme. Deve começar a fazer em vídeo mesmo, que é mais barato, depois partir para a película. É importante passar por essas etapas para adquirir confiança em você mesmo. Eu estou com 54 anos, é uma longa estrada. No entanto, com a produção do meu longa, estou passando por uma ansiedade tão grande quanto a de qualquer estreante. E quero que ele seja bem recebido. Tem gente que chega para mim e diz: "pô, cara, você vai ficar rico!". Eu não estou fazendo o longa para ganhar dinheiro. É claro que eu quero que ele seja bem recebido, tenha uma boa bilheteria. Mas eu já estou bem de vida, tenho meu estúdio há 32 anos, e criei condições para produzir meu filme, mesmo isso tendo demorado quinze anos. Eu acho que não importa o que você queira fazer; mesmo que leve cem anos, tem que ser feito. Infelizmente, essa é uma coisa típica de país pobre. É um quadro triste...

INTERROGAÇÃO - Em outras condições...

WALBERCY - O problema do dinheiro... bom, vejo isso mais pelo prisma da má condução do dinheiro público... Na verdade, penso que se você tem um sonho, deve batalhar para realizá-lo sozinho, sem ajuda do Estado. Eu, como profissional, tenho que me virar para arrumar o dinheiro para realizar meu sonho, e acho o governo não deve participar dele... Porque é o meu sonho. O investimento do governo deveria ser na área social, acabar com a miséria, a violência, enfim, ele deveria cumprir o seu papel. Infelizmente ele precisou criar leis para dispor dinheiro para se produzir filmes... Isso é bom, se for pensar que estes filmes podem se reverter em arrecadação para o Estado sob forma de impostos etc. Mas muitas vezes o dinheiro acaba sendo usado para se produzir muita porcaria.

INTERROGAÇÃO - Para finalizar, o que você espera do seu filme?

WALBERCY - Eu acho que o Grilo tem muito de mim, Na maneira de ver as coisas... Bom, segundo meu primo, eu nasci debaixo dum pé de café. Talvez por isso eu goste muito de mato, natureza, como o Grilo, também. Mas eu não sou bicho-grilo (risos). Mas eu faço este filme sobretudo pensando nas crianças. Eu já saí diversas revistas internacionais, ganhei muitos prêmios pelos meus trabalhos, mas nada me deu mais emoção do que ter visto meus filhos nascerem. Foi a partir deste momento que senti a necessidade de fazer algo para as crianças. Eu queria terminá-lo com meus filhos ainda pequenos, mas acho que vou quase dá-lo aos netos de meus netos. É triste fazer filme num país pobre. Mas eu não estou fazendo um filme só para ganhar dinheiro, que é claro, espero que seja ganho, mas espero também que seu sucesso corresponda ao meu empenho por ele, que se emocionem. Considero meu trabalho uma bandeira levantada pela causa do ser humano.

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