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Heróis Nus

Lúcio Mazzaro

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A cultura parece apresentar sinais de uma crescente crise esquizofrênica. Um turbilhão de força centrífuga que cada vez mais lança uma infinidade de objetos, símbolos, valores, tão misturados à extremidade que não é mais possível definir se fazem ou não mais parte do centro irradiador.

No caso dos quadrinhos, este "sintoma" parece ficar mais evidente nas diversas transformações passadas pelos super-heróis, que acompanham, em maior ou menor grau, a transformação da própria sociedade à busca de novas formas de projeção.

Partindo de alguns exemplos de heróis clássicos daquela media, percebe-se os mais variados tipos de aspirações originais sugeridas por cada um: Batman, apesar de suas roupas, surge com um caráter basicamente detetivesco, que ambientar-se-iria num clima dark, com referências um tanto expressionistas e mesmo noir; Superman é dotado de superpoderes, e sua aparente indestrutibilidade lhe confere uma aura quase divina, sobretudo pelo fato de não pertencer à Terra, impingindo-lhe uma "imparcialidade", uma "pureza" em suas ações (por não ser "obra" do Homem), e por consequência , pura é também a nação que o acolhe; Capitão América e Homem-de-Ferro encarnam, por sua vez, a proposta dos "escolhidos", homens que, pelas circunstâncias, estão destinados(!) a defender sua Pátria e seus valores (Capitão América surge de uma experiência -clandestina- para a criação de um super-soldado, na Segunda Guerra; o Homem-de-Ferro surge à partir de um acidente com dr. Stark, na Guerra do Vietnam) ou seja, a despeito de terem 'recebido" compulsoriamente estes poderes, usam-nos em prestação ao bem dos seus pares.

Se por algum tempo os heróis e seus valores conseguiram conservar-se basicamente pelo recurso narrativo pela técnica da iteratividade* (episódios fechados que, desvinculados um do outro, permitem sempre uma espécie de "recomeço"), é no próprio campo narrativo que dar-se-á talvez um dos principais fatores favoráveis à quebra da "intocabilidade" do herói, quando as revistas Marvel assumem uma espécie de encadeamento infinito das diversas histórias e heróis, por meio de citações: então temos um herói, numa revista X, número Y, que cita um evento ocorrido em Revista Z, Numero XY (geralmente as citações vêm marcadas com asteriscos, com uma legenda indicativa no quadrinho, por exemplo: "ver Super Heróis Marvels no. 156"). É um engenhoso mecanismo de diegese, pois (sobretudo se for um colecionador ou consumidor com certa assiduidade) o leitor reconhecerá aquela informação (provavelmente já a lera ou interessar-se-á em buscá-la) sentindo-se assim tão participante daquele "universo" quanto o próprio herói que proferira a citação. É uma projeção que ultrapassa a simples identificação com um simbolo (o herói) para cair na sua projeção da própria história daquela "realidade".

Para citar um exemplo da importância deste envolvimento "histórico", quando, aqui no Brasil, foi lançada a edição especial do Homem-Aranha "A Última Caçada de Kraven", na qual Peter Parker já se encontrava casado com Mary Jane, esta última informação foi suprimida (por uma "manipulação" dos diálogos), dado o fato de que este evento ainda não havia ocorrido na edição periódica brasileira do herói, ou seja: aqui no Brasil, "oficialmente", Homem-aranha não era casado.

Mas é na pele do personagem que ocorre uma transformação mais significante: um maior envolvimento com o herói pareceu exigir do mesmo uma maior dose de falibilidade, que pode ser bem exemplificada pela fácil identificação com Peter Parker, que mesmo sendo um herói, passa pelos dilemas de qualquer pessoa comum, inclusive ter que "ralar" para poder pagar as contas do fim do mês. Esta falibilidade, por sua vez, vem contribuir para a quebra de uma outra barreira: se até então a demência do mundo era uma prerrogativa exclusiva na representação dos vilões, ela passa gradualmente a permear a personalidade dos heróis, destituindo-os de uma inocência da qual também se destituia a sociedade: se antes ela enquadrava-se numa visão bipolarizada, como por exemplo, num contexto político mundial, os blocos da superpotências existente por três décadas (50, 60 e 70), década de 80 vem questionar esta própria bipolarização, acrescentando maiores nuances do que a simples divisão Bem/Mal e seus respectivos símbolos.

É nesta extrapolação dos símbolos que os heróis evidenciam a perda de seu sentido original. Seus uniformes, na melhor das hipóteses, representam o(s) poder(es) que possuem, não mais um "time". Os valores destacaram-se sob um cinismo que identifica no seu vizinho o próprio inimigo. Esta visão tem um dos maiores exemplos em "O Cavaleiro das Trevas", de Frank Miller, no qual dois heróis (Batman e Superman) não lutam lado a lado: confrontam-se. Um confronto no qual Batman é um elemento questionador de um sistema (ao qual ele próprio servira) incapaz de enxergar as próprias chagas, encarnada na figura do "escoteiro azulão" , Superman. Ambos figuram-se como os dois lados de uma mesma moeda.

Mas se até então o caminho era a investida de elementos humanos aos heróis, para, diminuindo sua bidimensionalidade, evidenciar sua falibilidade, esta última tem a sua provável constatação definitiva na série "Watchmen", de Alan Moore, no qual aquele caminho parece inverter-se: são pessoas comuns as quais se tentam investir de características heróicas (incluindo a adoção de simbolos -uniformes), numa busca de uma aspiração maior, a superação daquela própria falibilidade.

"Watchmen" parecia prever a volatilidade da noção de herói que iria dominar a produção atual de quadrinhos. Àquele tempo haviam conflitos na sociedade (e posições dentro deles) a serem questionados. Hoje aqueles conflitos não existem mais, e há uma crise na identificação do Mal a se combater. Esta esquizofrenia reflete-se na autofagia deflagrada no "mundo" dos super-heróis, em publicações como "O conflito do século - Marvel x DC Comics" (no qual os heróis das duas editoras lutam entre si), "Amálgama" (um ser que é cruzamento de Batman com Wolverine) e a mais nova versão de Superman (que agora divide-se em dois "heróis", cada qual com uma personalidade diferente). Mesmo o uniforme, como unidade singular de representação do poder do herói, perde a sua força, dada a quantidade de variações que sofre, instabilizando assim a própria existência fisica da personagem. A acelerada mutação e multiplicação de heróis, mais do que uma vulgarização mercadológica (ou até esta seja um sintoma), é um reflexo de uma sociedade cada vez mais amoral, fragmentária. O Herói, como discurso, também fragmentou-se. Mas tanto, que desapareceu.

* Iteratividade é um termo de Humberto ECO em seu livro "Apocalípticos e Integrados".

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