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Os Elementos Sinistros

Lúcio Mazzaro

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Se a noção do bem e do mal tomou várias concepções de acordo com as mais variadas sociedades surgidas ao longo da História, talvez no século XX tenha ocorrido o maior laboratório dessa difusão de códigos morais dentro de uma sociedade, dado que nesse período deuse o maior desenvolvimento dos meios de comunicação na História da Humanidade.

Um dos exemplos mais claros dessa possibilidade pode ser tomada pela produção cinematográfica americana no período da 2ª Guerra Mundial e da consequente polarização (Guerra Fria). Se todos os principais países beligerantes armaramse da produção cinematográfica como forma de (ou reflexo da) propagação ideológica, a dos EUA podese destacar das demais por, desde o início da guerra, adotar uma postura antinazista, assumida ou veladamente (na França e Inglaterra poucas referências são feitas à ameaça alemã adotandose uma postura omissa, e no caso da França, até de certa simpatia; na URSS o cinema antinazista apresenta seu momento mais prolífico no início da guerra ao final da mesma, decai novamente no simplismo do realismo socialista), e no período pósguerra os americanos estenderam sua produção de filmes com conotação propagandista, agora com relação ao novo pólo ideológico, à exaliada URSS.

Ou seja, os EUA utilizamse do meio de comunicação mais popular (ao lado do rádio) como eficiente ferramenta para trabalhar sobretudo o temor sobre algo que está para acontecer (premissa básica da publicidade, apenas havendo substituição da promessa de uma realização futura pela [oni]presença de elementos sinistros). É na criação destes símbolos do mal e do apelo de combatêlos que procurase angariar adeptos à causa da sociedade no caso, americana.

É o combustível perfeito para alimentar um povo com uma postura tendenciosamente isolacionista, cuja nação nasceu imbuída em um ideal, alicerçado em princípios com fim a cumprir uma proposta [de vida]. Foi o primeiro país moderno a organizarse revolucionariamente em um movimento anticolonialista.

Assim, toda a filosofia que irá permear a concepção do inimigo gira basicamente em torno da distinção em torno do que está de acordo ou não como o ideal americano (americanismo). Esta posição extremada deu margem ao Comitê sobre Atividades AntiAmericanas (existente desde 1937) que teve sua máxima expressão, no PósGuerra com a Caça às Bruxas (Macartismo).

A concretude do inimigo parece residir tanto mais na ideologia que ele representa do que o inimigo propriamente dito; esse "distanciamento" parece colaborar na forma da alegorização do mal. Por isso, tanto na 2ª Guerra como na Guerra Fria os ataques ideológicos dos americanos via filmes centramse aos pólos irradiantes das idéias consideradas antiamericanas. No caso, isto justifica o fato de, mesmo tendo sido atacados pelos japoneses na Segunda Guerra, deuse prioridade à produção de filmes Antinazistas (Alemanha como centro irradiador). Vale notar que antes da entrada dos EUA na Guerra, em geral produziamse filmes que faziam apenas referências veladas ao totalitarismo, e mais especificamente ao nazismo ("Correspondente Estrangeiro", 1940). A exceção era Confissões de um espião Nazista, (1938). Mesmo assim, a Warner, produtora do filme, foi persuadida pelo Governo (extraoficialmente) a não repetir tal façanha. Esta barreira foi gradualmente caindo com filmes como O Grande Ditador (1940). Quanto à Guerra Fria, a despeito das guerras localizadas (Coréia e, mais tarde, Vietnam), é na generalização do Comunismo como uma força inimiga à espreita que se combate a então 2ª potência Mundial (URSS).

A forte censura (no caso dos EUA, a maior dentre as nações beligerantes) em relação à produção de filmes de atualidades revela mais uma faceta na questão do "distanciamento" como arma para concepção do "outro": a "romantização" do inimigo em filmes ficcionais em detrimento de seu conhecimento concreto nas atualidades. Esta era uma barreira facilitada pela não simultaneidade daquele meio de comunicação, que fica mais evidente comparandose com a consolidação de seu sucessor (a televisão) nas décadas seguintes e seu papel no desmascaramento das atrocidades da Guerra do Vietnam.

A ciência e a tecnologia tiveram uma participação paralela à essa definição de papéis, chegando mesmo a tornarse o símbolo das possibilidades extremadas dos conflitos. Tomandose o início do século, encontrase a revolução científica na Teoria da Relatividade de Einstein (que vem alterar um modelo de Física, vigente até então por duzentos anos) e as pesquisas de Freud sobre uma natureza até então desconhecida do homem (O Inconsciente). Estes dois trabalhos agora inseridos à cultura vêm provocar (ou revelar) sérios abalos às tradicionais crenças morais e religiosas da sociedade de então, funcionando quase como um (mal) presságio ao que estaria por vir a seguir: a 1ª Guerra Mundial, a primeira a tomar um caráter impessoal, dado o desenvolvimento técnico/tecnológico que permitiu a eliminação em alta escala e distanciada do inimigo. Tornase a primeira demonstração da natureza destrutiva do homem que desaguaria na sua expressão definitiva com a explosão das bombas de Hiroshima e Nagasaki.

A tecnologia e o seu (não) domínio pelo homem tornase um elemento propulsor a mais para alimentar os temores e tensões nesta polarização, acabando por transfigurarse mesmo, em determinados casos, em símbolos, em objetos trabalhados em filmes que por vezes adquirem um caráter quase místico/divino.

A própria construção da primeira bomba atômica foi cercada por fantasmas da insegurança sobre o surgimento de uma "força maior": os Estados Unidos (junto com GrãBretanha) aceleraram suas pesquisas e construção do artefato exclusivamente em função do temor que as nações totalitárias o fizessem antes; acontece que tanto os russos como os japoneses não possuíam recursos para cumprirem um cronograma emergencial; quanto à Alemanha, especulase que possuía recursos, não fabricou a bomba simplesmente pelo fato de Hitler associar a ciência nuclear à Einstein, ou seja, era uma "ciência judia"! (É uma especulação que talvez se baseie no fato de o nazismo ter um caráter de ideal clássico, em oposição à modernidade representada pelas atividades de personalidades de ascensão judaica da época (por exemplo: Einstein, Freud, Marx, etc).

Nos casos dos filmes, se estes tradicionalmente já apresentavam, em alguns de seus gêneros, a violência como solução inevitável para a conclusão da história (o tiroteio no Western, por exemplo), ou como a representação de uma força coercitiva, uma ameaça externa maior que deve ser destruída (o monstro dos filmes de terror), esta última possibilidade é resgatada, amplificada e consolidada com a polarização ideológica resultante da 2ª Guerra Mundial. Ela transfigurase sob a forma de alienígenas que se infiltram, como réplicas, em uma cidade (Vampiros de Almas, 1956, Dir. Don Siegel), ou (com um cunho pacifista) na possibilidade de destruição da terra pela guerra nuclear (O dia em que a terra parou, 1951).

O filme que provavelmente melhor ilustre este paralelo entre o temor ao inimigo e sua representação em um objeto fílmico é Matinê (1993) de Joe Dante, no qual um produtor decadente de filmes "B" de ficção científica deslocase até a Flórida para exibilos em uma pequena cidade, com um detalhe: ela é a cidade mais próxima de Cuba e este país acabara de receber os mísseis nucleares soviéticos. É naquela cidade, num ambiente de angústia permanente, que o produtor encontrará o respaldo catártico que ele procura e não chega mais a encontrar no resto do país, tanto que sua saída da localidade coincide com o fim da crise dos mísseis.

Talvez nunca uma arte, em determinado período, tenha servido com tanto rigor a tão estranha função: construir inimigos.

Bibliografia

TUDOR, Andrew. Cine y Comunicación social. Editorial Gustavo Gilli, S.A.. Barcelona, 1975.
BENGER, John (org.). Modos de ver. Livraria Martins Fontes. São Paulo, 1972.
JOHNSON, Paul. Tempos Modernos. Instituto Liberal. Rio de janeiro, 1990.
HELLMAN, Lillian. A caça às Bruxas._,Rio de Janeiro, 1981.
KARNEY, Robin (org.). Chronicle of the Cinema.Dorling Kindersley Publishing inc. NY, 1995.
FEIJÓ, Martin Cezar. "O sinistro da Modernidade" in Voz da Unidade no. 476 21/12/89
FERRO, Mark. "A entrada em Guerra: Espírito Público e Cinema"

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