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A influência do Neo-Realismo no Cinema Brasileiro

Roberto Pires

Aprecie!

O que foi (ou ainda é) o Neo-Realismo

O clima era de destruição. Itália pós Segunda Guerra. Mesmo sendo uma das derrotadas no conflito mundial, a consciência coletiva da massa popular faz ressurgir o ânimo em reconstruir tudo aquilo que haviam perdido. A cultura cinematográfica toma grande responsabilidade nesta ação.

Já em 1945, o filme Roma - Cidade Aberta de Rossellini, marco inicial do neo-realismo, traz tom documental mesclando imagens clandestinas da ocupação nazi-facista na Itália em 1943, a resistência e a sua libertação em 1945. No ano seguinte Paisá, outro filme de Rossellini, traz o confronto e contato entre o povo americano e italiano, realizando uma apologia à solidariedade entre os homens em sua luta pela liberdade.

Além de crescer com a reconstrução daquele país, o neo-realismo também coloca o seu enfoque no problemas cruciais da época como a reforma agrária, o desemprego e temas cadentes em filmes como O Ladrão de Bicicletas (1948), de Vittorio De Sica, O Caminho da Esperança (1950),de Pietro Germi, entre outros.

Muitos aspectos que prenunciavam a corrente neo-realista já vinha se desenvolvendo clandestinamente desde o ínicio da década de 40 sob o regime facista.

O ambiente natural e aberto pode contar, além de seus elementos pictórios, algo vivo sobre o que se passa durante a ação. Descobre-se aqui uma Itália verdadeira para si mesma. A paisagem pode se tornar até mesmo um protagonista, sem esconder suas periferias, becos e locais públicos espontâneos. Locais autênticos para que seja transmitida emoção e vida natural de seus moradores.

Aderentes à realidade, os filmes neo-realistas usaram a língua cotidiana da maioria dos italianos, simplificando os diálogos em geral e contribuindo para que fosse consolidada uma linguagem-padrão nacional.

Boa parte dos cineastas neo-realistas começaram sua carreira realizado curtas-documentários. Isto já sugere uma origem nesta busca pelo captar do real e o testemunhar da história, seja através da cenografia, enredo e outros elementos da realização cinematográfica.

Continuando a perpétua busca da autenticade em suas realizações, os cineastas utilizaram atores não profissionais que podiam interpretar a si próprios, levando-os a sua natureza e expressão verdadeira.

Um olhar especial para os casos cotidianos detona uma poderosa descoberta do próximo. Independente de fatores sociais ou étnicos, chama o elemento coletivo para as telas. A história individual ou heróica é descartada pelo neo-realismo.

Sem os recursos necessários, os cenários foram trocados por lugares reais, tipos comuns e atividades espontâneas. Recursos de efeitos visuais também foram descartados, assim como a montagem recorre a cortes simples, sem esmeros técnicos.

Sendo participante da realidade, o neo-realismo não esconde as malezas e sofrimentos, sugerindo até mesmo soluções em algumas vezes.

Diversos são os subtemas do neo-realismo. A partir deles surgem a base e enredo de quase todos os filmes desta corrente: denúncia do facismo e a exaltação da resistência, subdesenvolvimento, desemprego, problemas sociais no campo, o abandono na velhice, a condição da mulher, deliquência nas cidades, entre outros.

Após este breve resumo sobre a origem e temática do neo-realismo em sua terra natal, passemos adiante para saber como tal corrente se expandiu pelo mundo através dos diversos cinemas-novos, principalmente no terceiro mundo e, em especial, no Brasil.

Influências no Brasil

Muito mais do que uma influência estética, o neo-realismo que influênciou diversos cineastas brasileiros nas décadas de 50 e 60 foi a visão superior de poder produzir filmes sem precisar de todo os equipamentos e serviços da grande indústria cinematográfica que dominava na época, além da malograda tentativa de manter uma cópia desta estrutura no país através da Vera Cruz, Maristela e Multifilmes.

Começemos a comentar sobre a obra inicial de Nélson Pereira dos Santos, Rio 40 graus (1955). Este filme, segundo Glauber Rocha, "revelava o povo ao povo: sua itenção vinda de baixo para cima, era revolucionária. Suas idéias eram claras, sua linguagem simples, seu ritmo introduzia o complexo de grande metropole, a câmera narra e expõe com ardor os dramas, as misérias e as contradições da grande cidade: o autor estava definido na mis-en-scene".

O neo-realismo foi decisivo para a "alma" de Rio 40 graus, pois foi um marco no cinema brasileiro por ser o primeiro a retratar verdadeira e criticamente o tema da pobreza na nossa sociedade. Como Jean-Claude Bernardet comenta que Nélson lançou com Rio 40 graus "o tema da criança favelada no cinema brasileiro: os engraxates favelados, ora tristes, ora alegres, eram o verdadeiro centro dessa sociedade múltipla retratada pelo filme, bem como sua vítima indefesa". O esquema de produção não fugiu da regia neo-realista: fora dos grandes estúdios, o baixo orçamento não impediu que este filme fosse artístico e socialmente ambicioso.

Rio Zona Norte (1957), o segundo filme de Nélson, traz a história de um compositor que é obrigado a vender suas criações musicais para sobreviver. Bem como em Rio 40 graus, o contraponto entre a burguesia e a classe popular é nitidamente colocada em plano de choque.

Logo após produziu O Grande Momento (1958), com direção de Roberto Santos. Ambientado no bairro paulistano do Brás, habitat de proletários e pequena classe média, o filme aborda a confusa e atrapalhada preparação de um casamento, mescladas com cenas cotidianas típicas de um bairro de imigrantes italianos. Em busca do dinheiro necessário para concretizar o sonho do casamento, o noivo vende a sua bicicleta, instrumento próprio de trabalho e lazer. O Grande Momento traz a reflexão pela problemática urbana e a opressão pela falta de dinheiro, mas isto não descontava o otimismo inabalado do casal.

Adaptado da suprema obra literária de Graciliano Ramos, Vidas Secas (1963), traz a emoção e o impacto da brasilidade para as telas cruamente. A saga pela sobrevivência no meio do sertão árido é palco de um verdadeiro tratado sobre as condições sociais e morais do homem brasileiro, enfrentando a seca e a opressão policial-política.

A estética da fome e a estética do sonho. O cinema pensado entre a política e a poesia. Estes são o supra-sumo de Glauber Rocha, o maior expoente do cinema-novo, movimento brasileiro influenciado diretamente pelo neo-realismo.

Glauber, ao gosto dos modernistas, antropofagiza o neo-realismo e faz um cinema novo com impacto. Ele mesmo convida: "Vamos fazer nossos filmes de qualquer jeito: de câmera na mão, em 16mm se não houver 35, improvisando na rua", mas também provoca defendendo que "o cinema novo se marginaliza da indústria porque o compromisso do cinema industrial é com a mentira e com a exploração".

A produção cinemanovista possui na primeira metade da década de 60, segundo Fernão Ramos, "três estruturas centrais, em torno das quais se articulam diversos conceitos e formulações. São elas: forma de produção, a linguagem e a ética (o compromisso com a 'verdade' e a 'realidade')", totalmente coerentes às características neo-realistas já comentadas.

Este ensaio foi apenas uma base para posterior aprofundamento nos diretores que foram apresentados, bem como o próprio movimento cinema-novista que certamente vale o registro de serem explorados.

Bibliografia
BERNARDET, Jean-Claude. O que é Cinema. São Paulo: Editora Brasiliense, 1980.
BERNARDET, Jean-Claude. Brasil em Tempo de Cinema. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1967.
FABRIS, Mariarosaria. O Neo-Realismo Cinematográfico Italiano. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1996.
GOMES, Paulo Emílio Sales. Cinema: Trajetória no Subdesenvolvimento. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
RAMOS, Fernão (org). História do Cinema Brasileiro. São Paulo: Art Editora, 1987.

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